Parece-me
Às vezes parece-me que as pessoas se chocam mais com as catástrofes naturais (embora os estragos desta pudessem ter sido minimizados se houvesse sistemas de alerta) do que com o mal feito pela mão do homem.
Às vezes parece-me que as pessoas se chocam mais com as catástrofes naturais (embora os estragos desta pudessem ter sido minimizados se houvesse sistemas de alerta) do que com o mal feito pela mão do homem.
O maior dos horrores para quem perdeu amigos e família no maremoto não é saber que eles estão mortos. É não saber onde estão. É nunca mais saber o que lhes aconteceu.
Eu cá ainda envio postais de Natal. Escritos à mão, com direito a envelope e selo. Serei normal?
Uma das lições mais bonitas que podemos aprender é a lição de amizade. Ando a aprendê-la desde o dia, há muitos anos, em que descobri que era possível ter uma melhor amiga. Não só possível como muito bom, muito divertido, muito reconfortante. A partir desse dia, só sei olhar para a amizade como uma coisa sagrada, intemporal, incondicional. Em que não é concebível guardar rancores, adiar desentendimentos, cobrar comportamentos, decisões ou escolhas. A amizade não é um receptáculo de favores, desabafos, descrições. Não serve o eu. Serve o nós. O que há entre o nós é a única coisa importante, porque sem esse núcleo tudo o resto - a minha vida, a tua vida -, não teria onde se sustentar. É preciso regar esse núcleo. Sim, é preciso fazer um esforço. É preciso conversar sobre as coisas. É preciso não insultar, não ofender, não reagir a quente. E é muito preciso rir, dizer coisas parvas e rir de novo, viver o momento, não olhar o relógio, viajar, ouvir, falar, olhar, chorar. Mais do que tudo, é preciso estar.
A minha pancada de infância não era o Tom Saywer, mas sim os Três Mosqueteiros.
Enviei um postal de Natal sem morada. Esqueci-me. E lá foi ele, sem destinatário, passear. Da caixa de correio para a carrinha dos CTT, da carrinha para o centro de distribuição. Ligo para o centro de distribuição. Ligue daqui a vinte minutos, menina, que as cartas estão a chegar. Liguei. Eram quase seis horas. Ninguém atende. São seis horas. Ninguém atende. Os correios fecham às seis, mesmo que seja Natal.