No ano passado perdi a Aimee Mann.
Duas vezes.
E agora apanhei-a, finalmente, em Bruxelas, entre as cabeças dos belgas altos, que são muitos.

A Aimee Mann não dá concertos quentes ou ruidosos. Também não dá concertos austeros ou frios. Não sei muito bem que concertos ela dá. A mim tirou-me a respiração em muitas canções, principalmente aquelas que ouvia e imaginava como seriam ao vivo. Seriam perfeitas? São. Ali tão perto, tão certeiras como sempre mas a atingir mais decididamente o alvo. Canção posta no arco, esticar, atirar: toma, esta é para ti, fala de ti, é tua.
E todos os freaks deste mundo que não sabem como amar, nem se deixam ser amados, todos os trintões que achavam que a sua vida por esta altura já estaria resolvida, ou diferente, mas afinal não está, e não é, todos os que já são crescidos mas ainda sentem as mesmas angústias de quando ainda não eram crescidos, todos os que constroem paredes de cimento à sua volta e amaldiçoam o mundo pela sua solidão, todos os egoístas, todos os que se acham os maiores e querem tanto ter tudo que acabam sem nada, todos os resmungões que afastam as pessoas mas que no fundo só querem encontrar alguém que goste deles, mas têm tanto medo que isso não aconteça que continuam assim, resmungões; ou todos os que só reconhecem que estiveram no sítio certo à hora certa dois segundos depois, exactamente dois, quando o que é já era, quando a porta aberta já se está a fechar, todos eles têm uma canção que é só sua.
E todos sabem que isto só lá vai, mais uma vez, com uma chuva de sapos.
(é um bocadinho nojento e pegajoso, mas às vezes tem mesmo de ser)